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Terra como teto-piso e parede

Argila, areia e pedras locais foram utilizadas para construir o mais extenso muro de terra da Austrália.


A principal e mais básica premissa da arquitetura regional ou vernacular é a integração da edificação construída com seu local de implantação. Essa integração implica em pelo menos três fatores fundamentais: respeito à cultura e regionalidade locais; adaptação da edificação ao entorno existente, natural e construído; e a escolha por materiais existentes no local. Nos conceitos do bioclimatismo, é preciso buscar alternativas que ofereçam melhor adaptação ao clima local e suas características naturais proporcionando conforto ambiental de maneira eficiente. Pode ser considerada sustentável, a arquitetura que engloba esses fatores e oferece soluções viáveis de construção com menor impacto socioambiental.

Seguindo os conceitos do regionalismo, o escritório australiano Luigi Rosselli Architects desenvolveu um projeto que se integra completamente a paisagem de dunas do noroeste da Austrália. Cercado por um solo vermelho rico em argila e areia, o edifício utilizou o que existia em maior quantidade na região como principal material construtivo.

© Edward Birch

© Edward Birch


Para mim, a primeira e primordial arquitetura é a geografia. – Paulo Mendes da Rocha


Sua localização em uma região remota e o clima subtropical foram os aspectos que direcionaram todas as decisões do projeto. Logo na concepção foi preciso selecionar um material que proporcionasse proteção ao clima adverso e depois de diversos estudos e simulações, foi o próprio solo do terreno que ofereceu a melhor massa térmica. Além dos aspectos climáticos, não foi preciso importar materiais.

Considerado o muro de terra mais extenso da Austrália e possivelmente do Hemisfério sul, O ‘The Great Wall of WA’ (A grande muralha da Austrália) foi concebido como uma operação topográfica, na qual, tetos também funcionam como pisos. Com 230 metros de extensão, o muro de terra serpenteia o terreno criando doze residências que funcionam como alojamentos temporários em uma fazenda. Paredes, tetos e piso foram feitos com o mesmo material, aplicado com uma espessura de 45 cm aumentando ainda mais a capacidade dos ambientes internos de se manterem frescos. Terra, argila, pedras e seixos encontrados no local formaram a paleta de materiais que compõe todas as edificações.

© Edward Birch

© Edward Birch

Em entrevista ao site Archdaily, o arquiteto responsável pelo projeto, Luigi Rosselli, contou suas inspirações e influências na seleção de materiais para o projeto:


“A paisagem do noroeste australiano, com o seu solo rico em minério de ferro e areia, e as restrições ambientais e climáticas adversas, serviram como uma grande inspiração para a concepção do projeto. A localização remota e isolada do terreno também exigiu uma solução prática de materiais utilizados. O muro é composto de argila rica em ferro, areia, que é uma característica dominante do local, e seixos e cascalho que foram extraídos do leito do rio nas proximidades. A laje também contém cascalhos e agregados do rio local, que emprestam uma cor avermelhada à sua superfície polida. Neste clima quente e duro, usar terra fez todo o sentido. O componente de argila da parede tem características higroscópicas, e o fluxo de ar ao longo da parede atrai a umidade a partir dele através da evaporação. Este arrefecimento por evaporação reduz a temperatura da parede da mesma maneira que o suor arrefece o corpo.”


No terreno existem, além dos alojamentos, um pavilhão multifuncional, uma capela e um espaço para reuniões. O desenho do muro serve para aumentar a privacidade de cada residência e permitir uma visão comum da paisagem a todos os hóspedes. As varandas cobertas protegem a sala envidraçada da insolação direta e convidam o usuário a apreciar uma brisa fresca do lado de fora. A vegetação de origem local que ornamenta os espaços construídos integra ainda mais entorno e edificação.

A grande muralha teve sua arquitetura reconhecida sendo indicada como finalista aos prêmio do Australian Institute of Architects.

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

© Edward Birch

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Fotos: Edward Birch / Imagem do projeto: Luigi Rosselli Architects

Comentários (5)

  1. wonibaldo rutzen

    Muito lindo, deve ser ótimo morara numa casa destas.

  2. Renan

    A sensação térmica deve ser ambiente delicioso

  3. monique nardini

    Olá!
    Tenho pesquisado sobre construções com adobe que estão começando a ganhar força em portugal e espanha, porém também descobri que estão “gourmetizando” o que era pra ser de graça e ensacando a argila pra vender, com isso industrializando e incluindo transporte, infelizmente.
    Pensando sobre produzir com essa qualidade no brasil, tive problemas ao encontrar formas de treinar construtores. A verdade é que precisamos pensar numa forma de evoluirmos a taipa!

  4. biaguanha

    Eu amei o site ! Parabéns pelo trabalho ! E essa matéria ficou incrivel.

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